sábado, setembro 18, 2004

Passo a vida a tentar compensar-te pelo que não consigo ser, amor.
Hoje ía a conduzir em direcção a um restaurante de fast-food, enquanto na tua cadeira, no banco detrás, batias palminhas de alegria e cantavas. Estás feliz, porque estou contigo. Não te cansaste de repetir "mamã, hoje vou contigo!". Como se fosse a coisa mais extraordinária que fizeste nos últimos tempos... Mas não deixavas de ter medo que te levasse para a escola. Conheces o caminho, e pensavas que te estava a enganar. Já te apercebes de tudo, mas a mamã não te mente. Nunca...
O problema, amor, é que a mamã teve quis mudar de vida e de trabalho, e ficou mais longe de ti, dos teus horários, da tua vida. A mamã deixou de poder levar-te à escola todos os dias, deixou de passar os fins-de-semana sempre contigo, e muitas vezes, quando chega à noite, já tu dormes descansada e feliz.
Mas tenho medo, querida. De não corresponder aquilo que esperas de mim. Porque sinto que sentes a minha ausência. Porque me pedes para não trabalhar, ou para te levar comigo. Não posso, linda...
Mas acredita, bebé, que este é um momento mau de nós, que vai passar. E que a mamã, quando te deixa, fica mais pequenina. Porque queria estar contigo sempre! Por isso é que tenta compensar-te com outras coisas. Na esperança de que um dia a vida se altere e melhore, e possamos ser nós duas outra vez...

quinta-feira, setembro 16, 2004

A mamã bem de esforça, e luta, e refila, e esperneia, mas a vida é difícil, e prega-nos partidas. Nem sempre o que queremos, ou desejamos se realiza. Há dias bons, outros nem tanto. E hoje é dia de nem tanto. Desculpa, querida...

sábado, setembro 11, 2004

A mamã saiu de casa com o papá, fez três anos, num dia normal de férias e de compras. Ías chegar, passado pouco tempo, e era necessário antecipar o teu regresso. Naquela altura, parámos num restaurante onde dezenas de rostos incrédulos olhavam para a televisão a fixar imagens que julgámos, inicialmente, serem de um filme. Bastante real...
Há coisas que os grandes fazem, amor, que não têm explicação. Como matar milhares de papás e mamãs de outras crianças, que a única coisa que faziam, naquele dia, era trabalhar. Afinal, era um dia tão vulgar como os outros.
Quando cresceres, princesa, vais perceber que o mundo nunca mais foi o mesmo, desde aquele 11 de Setembro. E que a palavra medo ganhou outro sentido.
Desde aquele dia que tenho a certeza que, aconteça o que acontecer, permaneces em mim e eu em ti, e não há barreiras, nem homens, nem aviões, nem tristezas, nem ausências, nem perdas, nem dores que me afastem de ti.
Porque hoje, se é possivel, e por respeito a quem perdeu quem mais amava, a mamã ainda te ama mais...

quinta-feira, setembro 09, 2004

Detestas acordar de manhã, bebé! Limitas a tua vidinha pequena aos horários que estabeleceste, e é tão difícil contrariá-los. À noite nunca tens sono. Queres sempre brincar até ao último minuto, escorrergar, ler, pintar... Ou, se por algum motivo, há mais gente em casa da avó, não páras até que a última pessoa se vá embora. Aguentas e combates o sono, guerreias com os olhos, que teimam em fechar, e continuas em grande animação. Chego a pensar que o avô, lá do céu, em vez de te guardar umas asas lindas, brancas e fofas, te deu pilhas. Daquelas que se carregam, todas as noites, e duram, duram, duram...

Toda a gente diz que é bom seres assim, agitada. Também acho, amor. Estimula-te os sentidos. O contacto connosco, os grandes, permite-te grandes façanhas, tais como: reconhecer desde à muito tempo, a letra "A", sem dificuldade; contar até 10 na perfeição, reconhecendo tambem já alguns números; falar correctamente, sem esquecer nenhuma letra. Consegues até, de vez em quando, acrescentar uma ou outra palavra ao nosso dicionário. No outro dia, apontavas para o rabinho e dizias "Mamã, tenho duas "safufas". Uma deste lado e outra deste". Tens razão, querida... a palavra é sem dúvida mais bonita do que bochechas! Não fosse eu tua mãe, para não te achar a mais linda, a mais inteligente, a mais perfeita. É um estatuto que se me confere desde que nasceste. Ser tão pouco subtilmente orgulhosa de ti!

Mas o teu sono, filhota, é que me tira horas de cama a mim. Tenho que acordar 90 minutos antes do trabalho, para que possas estar pronta a tempo, o que é ridículo no ambiente em que vivemos. Não há filas de trânsito, não há stress, não há nada! Só tu, calma e alva, que permaneces num sussurro quente, de respiração doce. E eu, cá com os meus botões, vou inventando métodos que te arraquem dos braços de morfeu. Como ontem, que te prometi que se acordasses, que podias desarrumar o quarto todinho. E era ver-te com uns olhos enormes, a acordar...

sábado, setembro 04, 2004

Queres sempre falar ao telefone, tonta. Começas aos saltinhos, e a dizer "quero falar". E eu adoro falar contigo. Acabo sempre às gargalhadas. "Tu chamas", e eu respondo "Maria Cachucha", ao que tu dizes a rir "Não és nada, és a Maria Mamã". E tu quem és? "Joana", dizes com convicção. Adoras o nome, e isso faz-me pensar.

Também não escolhi o meu nome, filhota, ninguém escolhe. Houve até alturas em que o detestava. Actualmente adoro. Fica-me bem, está bem comigo. E o teu tem uma história simples, que te posso contar querida. Estava um dia no escritório onde o papá trabalhava na altura, que tinha muitos contactos com a filial espanhola, onde havia uma Elena. Assim que olhei para o nome tive a certeza que era assim que te chamarias. É forte e feminino, como tu, com um toque se sensualidade, de sonho e de luz. D' A Minha Luz.
Portanto foi consensual. Tinhas que ser Maria, por convicção. Para fazer renascer a tradição portuguesa, sem aquela herança forte e pesada dos símbolos religiosos inerentes. Maria cheira a frescura de nuvens e a azul de céu. Tem textura de lençóis brancos acabadinhos de passar. E Helena sabe a bombons, a chupa-chupas e a gomas docinhos como tu...

sexta-feira, setembro 03, 2004

Tinhas poucos meses quando achei que era altura de me separar de ti, de te abrir os horizontes! Foi em Julho, pouco tempo antes de seres baptizada, quando inventei mil e uma desculpas para não te deixar nos braços de outra pessoa! Era uma casa nova, algumas caras novas, novas mamãs, muitas crianças. Mas um sítio daqueles que nos transmite confiança. Como se fosse a casa. A nossa casa. Agora sei que foi mais difícil para mim do que para ti! Quando ficavas ao colo da Bela sorrias, ou rias às gargalhadas. E foi, durante tantos meses assim. Eu, agarrada ao telemóvel. Nunca mais o desliguei um só segundo. Cheguei a testá-lo vezes sem conta, para ter a certeza das certezas de que estava a trabalhar, a funcionar, em perfeitas condições. Com medo que te acontecesse alguma coisa. Sempre...
Ao fim ao cabo tinham sido sete meses de mim e de ti. De nós, das duas. Em que tinha aprendido tudo contigo, em que tinha apelado ao meu instinto que te protegesse, e que te amasse de uma maneira tão perfeita, tão incondicional. Custou-me. Doeu-me muito. Tive ciúmes. Sempre a negar a mim própria que tu, minha menina, crescias com as flores, ao som da música, com o bater suave do vento na janela. Crescias depressa, e soltavas-te de mim!
Agora já me habituei às tuas fases. Houve um tempo em que a escola te assustava, não te cativava. Que preferias ficar comigo ou com o papá, em casa, na praia, ou simplesmente a brincar. Tinha que te mentir para te levar, sem que chorasses compulsivamente. Nessa altura sim, doía, porque te sentia receosa, e pactuava com o facto de saber que ficavas insegura. Tu, insegura... a minha menina determinada...
O tempo passa, amor. Os dias sucedem, as noites acontecem, as estações do ano mudam. Tens feito de mim uma Primavera constante, pintada de cores. E só agora, que começa o Outono, me apercebi que cresceste muito mais do que esperava. Estás na pré, amor. Mudaste de sala. E estás tão feliz. A mamã comprou uma mochila nova, que só as meninas crescidas têm. Com rodinhas e tudo. Cor-de-rosa. E tu não a largas. Como que a anunciar a tua independência. Puxas por ela a toda a hora. Enches as bolsinhas de brinquedos, de roupa, de tostões, e és feliz. Na tua sala nova, onde vais aprender a ser maior, fizeste-me um desenho igual a tantos outos que já fizeste, nas paredes ou no papel. Mas este, filhota, é especial. Porque é o início ou o princípio ou a continuação da tua vidinha pequena. Tão fresca e tão doce como tu...

sexta-feira, agosto 27, 2004

A mamã tem que trabalhar quando os outros papás e mamãs já estão em casa, com os filhotes. É por isso que, às vezes, não te vai buscar à escola. É por isso que, quando "tá Domingo", ficas com a avó, vais ver as galinhas da Tia Maria, ou vais à loja e ao Café, com os tostões, como tanto gostas! És igualzinha à mamã quando tinha a tua idade: preferes ter três moedas de valor inferior a duas de maior valor. Mas pelo menos já te ensinei a distinguir as "pretas" das "brancas". A mamã não quer que ponhas as "pretas" no mealheiro, que é um porco, que vai pagar as nossas férias do ano que vem, no avião. Gostaste tanto de andar de avião. Eu tenho medo, como o avô Emídio tinha, que nunca chegaste a conhecer. Está no céu, como te ensinei. Foi para o céu, alguns meses antes de nasceres. Tens o sorriso dele. Espero e anseio que dele tenhas também outras coisas: a simpatia, a humildade, a alegria, e sobretudo uma capacidade inesgotável de amar tudo: a vida, as pessoas, os lugares.
O avô Emídio é e vai ser sempre uma referência. Só o conheces das fotografias, mas eu faço questão que ele esteja presente nos teus dias. Era o papá da mamã. Que deu colinho, que levou a mamã a conhecer o mundo, que fez sempre questão que a mamã estudasse, e que não lhe faltasse nada, que ensinou a mamã a sonhar. O avô teve um dói-dói muito grande e Deus deu-lhe umas asinhas. Brancas e fofas, como o algodão doce. A mamã fala muito com ele, pede-lhe muitos conselhos, e lamenta apenas que ele nunca tenha tido o prazer de te tocar, de te cheirar, pequenina. Um dia, quando fores maior e conseguires perceber, a mamã leva-te ao sítio onde a alma do avô Emídio descansa!
A vida é assim, bebé. Leva-nos, por vezes, quem nós mais amamos. Mas a ausência física não significa falta de amor. Como agora. Eu estou aqui, sozinha. Tu estás em casa do papá. E eu vou-me lembrando de ti, do seu sorriso, e a única coisa que consigo fazer é chorar. Porque sou feliz. Porque apesar de tudo, apesar do avô ter asas, e estar no céu, apesar de não estar ao pé de ti, apesar de não poder conversar contigo. Apesar de tudo. Tenho-te. E basta...

quinta-feira, agosto 26, 2004

Quando vais para casa do papá é sempre a mesma alegria. Agora no Verão, com a praia cheia de crianças, o teu sorriso rasga-se ainda mais e corres indefinidamente para que te vista o biquini. Queres o escorrega, queres andar no baloiço, queres a toalha do Batatoon e os óculos de sol. Nem preciso de te dizer três vezes que tens que ir no carrinho, porque assim que me apercebo já subiste e já apertaste os cintos, cuidadosamente.
Gostas do sol, atrai-te o mar. Diria, se fosse possível, que é genético. Meu, não herdaste o medo, e o respeito. Apenas o fascínio do papá, a atracção. Não queres saír dos barcos, inventas histórias sem fim, segues à risca as normas de segurança que te obrigam a usar o "coleto". Misturas-te facilmente na multidão, e depressa encontras ou fazes amigos, num código secreto que nem ouso entender. Falas com toda a gente, ris-te, e não páras. Com uma energia inesgotável, percorres o areal imenso e regressas, sempre com a mesma alegria. Saltas para a água, mergulhas, enches-te de areia, fazes desenhos e castelos.
E eu fico a ver enquanto te afastas. Adoro ver-te assim, sabias? Sento-me na esplanada e registo cada passo teu, cada movimento que não quero perder. Oiço de longe os teus gritos e tenho a certeza de que és feliz. Pena que a vida não seja um Verão eterno!
Quando regressas, já cansada, és muitas vezes vencida pelo sono. Quando ainda resistes a chegar a casa do papá acordada, adormeces profundamente em cima da mesa do jantar. Venceste as ondas pequenas do mar, os montes de areia brilhante, o soprar confuso do vento, os brinquedos das outras crianças. Mas quem te venceu foi Morfeu, que te leva para longe, em sonhos profundos. E eu fico a adivinhar, quando sorris enquanto dormes, que nos teus sonhos há mais praias. E uma areia fofinha e quente, prestes a ser pisada...

sexta-feira, agosto 20, 2004

"Amanhã o João Pedro mordeu-me", dizes com o olhar triste, enquanto me mostras mais uma boquinha marcada no braço. Os dentinhos perfeitamente desenhados, a denunciarem a dor. As dores. Nos últimos dias tem sido sempre assim! Apareço no Infantário, para te levar para casa, muitas vezes sabe-se lá com que humor. Mas assim que entro, sei que acabaram os problemas, as angústias, os medos, enfim. Assim que passo a porta abro os braços e recebo-te com um sorriso e uma saudade tão grande de te abraçar. Mas estás triste, ou pareces aliviada quando me vês. Dantes corrias para o meu colo, enquanto gritavas pela "pepê", ultimamente não, tens medo.
A mamã queria ficar contigo, proteger-te, sofrer por ti as tuas preocupações. Queria viver por ti o teu dia-a-dia, salvar-te dos dentes eficazes do João Pedro, dos ataques constantes da Solange, ou simplesmente estar ao pé de ti, para te embalar, enquanto lutas fortemente contra o sono, num choro suave. Mas a vida não é assim, querida. Ensina-nos, desde cedo, a criarmos as nossas metas, a ultrapassarmos as barreiras e as dificuldades. Ensina-nos a viver em conjunto, para o bem e para o mal. A vida é simplesmente um Infantário grande, onde lutamos pelos nossos direitos, pelas nossas convicções, pelas nossas paixões. E tu, tão pequena, já te vais apercebendo.
E eu, filhota, que sou tua mãe, que te tenho para sempre, ouvi um dia uma verdade tão verdadeira e tão única que me ensinou a mim a reagir às tuas tristezas. Não posso evitar que caias, princesa, mas posso estar lá, sempre, para te ajudar a levantar...

quinta-feira, agosto 19, 2004

Aqueles "senores" e "senoras" que vês na televisão, filhota, são desportistas. Correm como tu, quando foges quando te quero pentear, lutam como tu, pelos brinquedos do infantário, nadam como tu, na piscina da avó, de onde nunca queres saír, chutam a bola com força como tu, enquanto gritas "gooollooooo"! Estão nos Jogos mais antigos que conhecemos, que começaram na Grécia, para onde regressaram! São heróis do nosso tempo, como a Branca de Neve e o Patinho Feio. Enchem-nos de orgulho e de esperança no futuro. Renovam as forças e procuram sempre, sempre, fazer o seu melhor. E a mamã vê o atletismo, a vela, o futebol, o box, tanta coisa, que fica a pensar no que te deve dar, ou porporcionar. Porque estás crescida, mel, e qualquer dia é a tua vez!
Se a personalidade se adivinhasse, serias bailarina. És feminina, vaidosa, meticulosa. Procuras sempre alinhar os brinquedos, e as roupas. Adoras estar bonita. Sentes-te bonita. Sabes que és bonita! Mas também serias futebolista. Tens força, és destemida, acreditas. E não tens preferência de clube. És de todos, consoante a ocasião. Gritas apenas "Putugal", enquanto agitas a bandeira e o cachecol. Ou serias velejadora. A tua atracção pelo mar é genética. Só pode ser. Pedes vezes sem conta ao papá que te leve com ele, enquanto ensina os outros meninos. Não tens medo, e insistes sempre que queres o teu "coleto". No outro dia passeaste com ele pela casa, horas a fio! E nadadora? bates os pezinos, freneticamente na água. Mergulhas, saltas, brincas! E a mamã cada vez fica mais confusa!
Não preciso que ganhes medalhas, nem que te ponham coroas de flores na cabeça, enquanto erguem a bandeira do teu país. Não preciso que aplaudam a tua passagem, e que te relembrem ano após ano, pelos feitos desportivos históricos. Porque heroína já tu és, em mim, na minha vida. E faças o que fizeres, sejas quem fores, pratiques o desporto que praticares, vais ser sempre a Helena. Aquela que ontem à noite, baixinho, me perguntou "mamã, és a minha amiga?"

segunda-feira, agosto 16, 2004

A madrinha da mamã vive muito longe daqui. Mais longe, do que o caminho que julgas distante, que te leva ao infantário onde às vezes te deixo. Tão longe, que os teus dedinhos não são suficientes para contar as horas que demomoraríamos a lá chegar. A madrinha da mamã, a tia "Imelinda", como dizes, teve uma vida carregada de coisas más, porque há homens maus. Como o Lord do Shrek, que o persegue, ao qual tu fazes feias. Lembras-te?
Por isso é que a mamã, sempre que pode, enche a madrinha de mimo. Por isso lhe telefona, tantas vezes, por isso pensa tanto nela. Porque ela, lá de longe, também sente muito a nossa falta. Por isso é que hoje decidi tirar-te fotografias, amor. Porque queria que a madrinha, ao ir-se embora lá para longe, levasse um bocadinho de ti na mão. Porque no coração já ela te trás desde que nasceste!
E tu surpreendes-me sempre, pequenina. Como que se adivinhasses as minhas vontades. Visto-te o biquini, antes de ires feliz para a praia, sento-me à tua frente, com a máquina do papá, e tiro-te fotografias sem fim. Sinto e sei que tenho que perpetuar cada momento teu, cada gesto, cada expressão. E tu, vaidosa como sempre foste, vais mudando de posição, com as mãos na cintura, e sorrindo. Porque sabes que és linda, sabes que, para onde vais, ou por onde passes, todos te contemplam. Tens brilho, filha! Tens cor! E tens a mamã mais orgulhosa do mundo...

sábado, agosto 14, 2004

Como é que te explico, princesa, que a vida nem sempre nos corre como queremos, ou como idealizámos. Como é que justifico a ausência de alguém que faz tanta falta aos teus dias? Como é que consigo, contigo, assumir a minha incapacidade de, no passado, te dar a família que tive, e desejei para ti?

A mamã passa os dias a trabalhar, com horários incertos, por isso é que há tantas vezes que não chega a ver-te. Mas é só por ti. Para que cresças, com saúde, com tudo o que a mamã teve. Sabes, faço questão em levar-te a conhecer outros mundos, como no outro dia em que foste aquele museu da ciência, e gostaste tanto. Ou como naquelas férias, no hotel da praia, onde os teus horizontes se resumiram à piscina, tão grande e tão azul. Um dia vamos rir as duas quando te contar que fomos ao Teide, e que não fizeste outra coisa senão dormir. Ao meu colo. Como quando eras pequenina! Aquelas paisagens únicas, meu amor, passaram ao lado do teu sono profundo, e eu sei, nas histórias que te conto, que fazem parte dos teus sonhos, e das tuas fantasias.

O papá vem buscar-te às vezes, quando combinamos. E eu faço tudo o que consigo e que não consigo para que não sintas a sua ausência. Sei que o chamas, quando te aborreces comigo. Sei que sentes saudades. Mas filhota, não fui capaz. Vivemos todos juntos, mas naquela altura não me sentia bem. Talvez a minha relação com o papá tivesse sido tão repentina, que se tornou efémera. E como é que te explico o que é que isto quer dizer? A nossa casa agora está fechada, há quase um ano que não consigo entrar lá. Sempre que lá vou, querida, choro como se fosse uma menina como tu. Apesar de tudo, aquela é a casa. A nossa. Onde tudo foi pensado, imaginado, e cuidadosamente feito para que fossemos felizes assim. Mas os homens e as mulheres, ao contrário das crianças, teimam em complicar coisas tão simples como o amor. Hoje sei o que é o amor, porque te tenho...

Mas filha, o papá e eu, lá nos vamos entendendo. Quase um ano de ausência e de distãncia fez-nos bem. E eu re-aprendi a amá-lo. Sem falsidades, sem desconfianças. Aproveitei o que de melhor tínhamos tido, e tento aos poucos reconstruir uma relação que deixámos degradar, sem eu me aperceber. Comecei do nada de novo, minha filha, porque anseio todos os dias ter resposta para te dar quando me perguntas porque é que não estamos todos juntos. É o teu desejo, querida, e o meu também...

sexta-feira, agosto 13, 2004

Cresceste tanto, filhota, que as roupas já não te servem. Cresceste desde ontem, quando saí de casa, e dormias profundamente, numa calma que só a ti reconheço. Cresceste desde que te afaguei os cabelos e te beijei a face, enquanto sorrias. Quando olho para ti, sei e tenho a certeza de que a felicidade existe. Porque desde que nasceste, que sou mais feliz. Não só porque vieste preencher um vazio deixado pela ausência do teu avô, talvez por teres cara de anjo, como ele. Sabes que são parecidos, filha? Tens o mesmo nariz pequeno, e arrebitado, fazes as mesmas expressões, e o queixo é inconfundível. Por isso tenho a certeza de que foi Deus que te trouxe, para nos compensar a todos, pela tristeza profunda que tínhamos atravessado.

Mas filhota, desde que te vi pela primeira vez, tive a certeza de que estávamos unidas para sempre. Apesar de te terem cortado o cordão ao fim de 36 semanas dentro de mim. Apesar de, algumas vezes, ter que te deixar, e não ficar ao pé de ti, como gostava e como merecias. Habituei-me á tua presença, ao teu cheiro. E a primeira coisa que faço quando te vejo, é cheirar-te. Para ter a certeza que estás ali, ao pé de mim, e que és a Helena. A minha Helena. Sabes que, apesar de nunca querer saber, sempre soube que eras tu? Sonhava contigo, com a tua presença, sentia o bater dos teus pezinhos. E quando te viram nascer, quando me disseram que eras uma menina, a minha menina, tive a certeza de que a natureza não se engana, e eu também não me tinha enganado.

Querida, há dias dei por mim a recordar os ainda poucos momentos da tua vida. Porque tenho medo, ou receio, que as memórias se percam. Tenho medo de me esquecer de alguma das tuas fases. Lembro-me de te achar tão pequena, e ver-te tão linda, quando nasceste. Sei que te amamentei por pouco tempo, mas que te dei tudo de mim, nos teus primeiros meses, apesar de às vezes me sentir meio perdida. Lembro-me quando te levei para o Infantário, e o que me custou deixar-te ao fim de 7 meses de uma presença constante. Lembro-me das tuas primeiras palavras, ou dos dentes que teimavam em não nascer, e das vezes a fio que me chamaste papá, quando te ía buscar à escola. Sou a mamã, filha. A mamã que se aborrece contigo, quando fazes asneiras, e que te compensa quando és menina bonita. A mamã que se ri dos teus disparates, da altivez com que dizes o teu nome todo, e da segurança com que, do alto dos teus dois anos, contas os dedinhos, até dez, sem te enganares. Sou a mamã, que chora quando tem que ir trabalhar até tarde, quando tu lhe pedes para ficar, que se emociona com as tuas descobertas e vitórias do mundo, e sobretudo que faz questão, muita questão, de te ensinar a ser feliz. Mas tu, na tua pequenez, é que me tens ensinado quase tudo!