Às vezes, ou quase sempre, fico espantada com o teu crescimento, e da maneira fácil em que se transforma em desenvolvimento repentino. Sempre achei que és estimulada como poucas crianças são, porque afinal nem todos têm o privilégio de ter uma educadora privada, a quem tens também a alegria de chamar avó. Por isso os teus dias em casa nunca são monótonos. Ao ponto de pesares em pratos de balança se te apetece ou não, todos os dias, ir ao Infantário. À escola apelativa, pintada de cores, onde se multiplicam os jogos, as canções, e sobretudo os meninos, de quem tanto gostas. Onde fazes desenhos sem fim, dos quais te perguntei uma vez, romanticamente, qual seria a sua representação. Encolheste os ombros, como que a substimar a minha inteligência, e disseste simplesmente: "ó mamã... são riscos". E eu que julgava que, para ti, os riscos eram carrosséis, bombons, casinhas e brincadeiras. Ontem cheguei a casa, farta do trabalho e de tudo. Qual soldadinho de chumbo, a avó exibe orgulhosa mais uma obra prima. Pede-te: "Helena, vai buscar a letra do nome da mamã". Trazes o V, que exibes aos saltinhos. Escolheste-o no meio de um puzzle colorido de todas as letras do alfabeto, com alguns números à mistura. "A da tia Patrícia e do Tio Pedro, e do Papá". Trazes um P com convicção. Segue-se o nome da Tia Rita. E depois: "Vai buscar a letra do nome da Helena!". E lá vais tu a correr, aos gritinhos. E eu, enternecida, deitada, extenuada e surpreendida. Trazes-me um M e um H. De Maria Helena. Achei depois que te conseguia confundir, princesa, trocando a ordem das peças e das letras. Mas quem se enganou fui eu... |
segunda-feira, outubro 25, 2004
sexta-feira, outubro 22, 2004
segunda-feira, outubro 18, 2004
sexta-feira, outubro 15, 2004
A Ziggy tinha um dói-dói muito grande, e morreu e foi para o céu. Ficas indignada, a olhar para a gaiola, onde falta a coelha a quem todos dias de manhã fazias questão de dizer "Bom dia!". Queres saber onde ela está, e porquê, onde é o ceú, e porquê, onde era o dói-dói, e porquê, o que é que ela tinha papado, que lhe tinha feito mal, e porquê. E mais... porque é que ela era preta, porque é que escapava sempre que tinha oportunidade, porque é que fugia quando lhe querias fazer festinhas no pêlo fofinho, porque é que já não podes por-lhe comida na tacinha, que ela devorava, porque é que já não te morde os dedinhos,... porque tudo! A tua curiosidade pelo mundo e pelas coisas que te rodeiam é tal, que muitas vezes fico sem palavras, sem saber o que te dizer ou que te explicar. Certo é que decidi ver-te crescer sem esconderijos, sem tabus ou falsas verdades. Tarefa complicada para a mamã, que tantas vezes tem que inventar mil e uma histórias e personagens, para que a vida não seja para ti incompreensivelmente estranha.
Engraçado é ver, no fim dos relatos, a versão que utilizas, para contar a toda a gente. Na tua inocência não existem segredos. A não ser aqueles que contas baixinho, ao ouvido, a toda a gente numa sala. A toda a gente! No outro dia houve uma reportagem na televisão lá perto da casa da avó, lembras-te? Quiseste saber o que é que os senhores lá estavam a fazer, o que é que ía aparecer na televisão, e porquê. Hoje contas alegremente que os senhores queriam cortar a estrada, mas o Manel não deixou, nem os outros senhores que vieram. E agora não se pode fazer uma ponte maior. Contas também que na escola, quando estás a papar a chicha a Carolina, que é feia, puxa o "gómito", e não papa a sopa toda, e fica de castigo, porque faz xixi nas cuecas e não come os bombons e as bolachas. Contaste no outro dia que a avó Lurdes e a Velha tinha ído ao "méquido", para papar comprimidos, daqueles que são bolinhas pequenas de cores, que tu ao longe invejas. Contas a quem te quer ouvir que o avô Emídio morreu e foi para o céu, porque, como a Ziggy, tinha um dói-dói muito grande. Perguntas-me, quando tenho uma dor de cabeça já habitual, se também vou para lá. Sossego-te e digo que não. A mamã está aqui e fica contigo até tu quereres e Deus permitir. E fica a olhar para ti, e a ouvir-te crescer, baixinho. Como já te prometeu... |
sábado, outubro 09, 2004
Tu, que não querias dormir, como sempre. Eu contigo, deitadas na cama. Não resisto aos teus apelos de menina e regresso ao passado. Em vez de te ralhar, ou de te tentar sossegar, faço-te cócegas sem parar na barriga. Não aguentas e ris às gargalhadas, enquanto gravo em mim instantes do teu riso.
Se morresse hoje, morria feliz. O teu sorriso cheira à minha infância, e a pão com marmelada!
sábado, outubro 02, 2004
| Hoje é um dia que a mamã não pode deixar passar em branco, por ser em tempos um dia feliz. Quando a casa de avó se enchia de alegria e de cores, de música, de gentes e de cheiros. Numa azáfama que não conheceste. Os amigos, a família, os conhecidos, apareciam todos, e as surpresas sucediam-se. Um mágico, um cantor, ou um porco no espeto. Como se fossem as coisas mais naturais do dia-a-dia. Uma senhora que levitava, uma pomba que aparecia de uma cartola, uma roda de sorrisos e de gentes, balões, fitas, comida e bebidas. Mesas intermináveis, cadeiras mil. Sonhos tão perto da felicidade. O avô Emídio, que não conheceste, fazia hoje 52 anos...
Falar-te do teu avô é difícil, bebé. Era altivo nas acções e nas palavras, era respeitador. Era duro nas alturas certas, sempre atento, preocupado em cultivar-nos. Amava a vida, a família, os amigos. Era orgulhoso daquilo que nos deu, de quem nos tornámos, do que nos podia proporcionar. Incutiu-nos o gosto e a curiosidade pelas viagens e pelo mundo. Ensinou-nos a crescer com valores fortes, com personalidades vincadas, com vontades universais. Deus deu-te o seu sorriso, as suas expressões, o seu queixo redondinho... Hoje não celebramos os 52 anos de vida do avô, mas existe em mim um misto de alegria e de saudade. Choro com mágoa, pela perda, mas no fundo apetece-me sorrir. Porque com o tempo, filhota, a saudade das pessoas boas que conhecemos, de quem sofremos a falta, transforma-se em carinho, em amor forte, em esperança. Transforma-se numa coisa doce, num relembrar feliz. Porque o avô era tão especial e gostava tanto de nós, e queria tanto ter a certeza de que a nossa vida ía ser pautada pela alegria. Hoje não celebramos o seu aniversário, mas sim aquela pessoa, aquela vida que não morreu, e que está sempre presente, todos os dias, dentro de nós... |
sábado, setembro 25, 2004
sábado, setembro 18, 2004
quinta-feira, setembro 16, 2004
sábado, setembro 11, 2004
quinta-feira, setembro 09, 2004
Toda a gente diz que é bom seres assim, agitada. Também acho, amor. Estimula-te os sentidos. O contacto connosco, os grandes, permite-te grandes façanhas, tais como: reconhecer desde à muito tempo, a letra "A", sem dificuldade; contar até 10 na perfeição, reconhecendo tambem já alguns números; falar correctamente, sem esquecer nenhuma letra. Consegues até, de vez em quando, acrescentar uma ou outra palavra ao nosso dicionário. No outro dia, apontavas para o rabinho e dizias "Mamã, tenho duas "safufas". Uma deste lado e outra deste". Tens razão, querida... a palavra é sem dúvida mais bonita do que bochechas! Não fosse eu tua mãe, para não te achar a mais linda, a mais inteligente, a mais perfeita. É um estatuto que se me confere desde que nasceste. Ser tão pouco subtilmente orgulhosa de ti!
Mas o teu sono, filhota, é que me tira horas de cama a mim. Tenho que acordar 90 minutos antes do trabalho, para que possas estar pronta a tempo, o que é ridículo no ambiente em que vivemos. Não há filas de trânsito, não há stress, não há nada! Só tu, calma e alva, que permaneces num sussurro quente, de respiração doce. E eu, cá com os meus botões, vou inventando métodos que te arraquem dos braços de morfeu. Como ontem, que te prometi que se acordasses, que podias desarrumar o quarto todinho. E era ver-te com uns olhos enormes, a acordar...
sábado, setembro 04, 2004
sexta-feira, setembro 03, 2004
sexta-feira, agosto 27, 2004
quinta-feira, agosto 26, 2004
sexta-feira, agosto 20, 2004
quinta-feira, agosto 19, 2004
segunda-feira, agosto 16, 2004
sábado, agosto 14, 2004
Como é que te explico, princesa, que a vida nem sempre nos corre como queremos, ou como idealizámos. Como é que justifico a ausência de alguém que faz tanta falta aos teus dias? Como é que consigo, contigo, assumir a minha incapacidade de, no passado, te dar a família que tive, e desejei para ti? A mamã passa os dias a trabalhar, com horários incertos, por isso é que há tantas vezes que não chega a ver-te. Mas é só por ti. Para que cresças, com saúde, com tudo o que a mamã teve. Sabes, faço questão em levar-te a conhecer outros mundos, como no outro dia em que foste aquele museu da ciência, e gostaste tanto. Ou como naquelas férias, no hotel da praia, onde os teus horizontes se resumiram à piscina, tão grande e tão azul. Um dia vamos rir as duas quando te contar que fomos ao Teide, e que não fizeste outra coisa senão dormir. Ao meu colo. Como quando eras pequenina! Aquelas paisagens únicas, meu amor, passaram ao lado do teu sono profundo, e eu sei, nas histórias que te conto, que fazem parte dos teus sonhos, e das tuas fantasias. O papá vem buscar-te às vezes, quando combinamos. E eu faço tudo o que consigo e que não consigo para que não sintas a sua ausência. Sei que o chamas, quando te aborreces comigo. Sei que sentes saudades. Mas filhota, não fui capaz. Vivemos todos juntos, mas naquela altura não me sentia bem. Talvez a minha relação com o papá tivesse sido tão repentina, que se tornou efémera. E como é que te explico o que é que isto quer dizer? A nossa casa agora está fechada, há quase um ano que não consigo entrar lá. Sempre que lá vou, querida, choro como se fosse uma menina como tu. Apesar de tudo, aquela é a casa. A nossa. Onde tudo foi pensado, imaginado, e cuidadosamente feito para que fossemos felizes assim. Mas os homens e as mulheres, ao contrário das crianças, teimam em complicar coisas tão simples como o amor. Hoje sei o que é o amor, porque te tenho... Mas filha, o papá e eu, lá nos vamos entendendo. Quase um ano de ausência e de distãncia fez-nos bem. E eu re-aprendi a amá-lo. Sem falsidades, sem desconfianças. Aproveitei o que de melhor tínhamos tido, e tento aos poucos reconstruir uma relação que deixámos degradar, sem eu me aperceber. Comecei do nada de novo, minha filha, porque anseio todos os dias ter resposta para te dar quando me perguntas porque é que não estamos todos juntos. É o teu desejo, querida, e o meu também...
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sexta-feira, agosto 13, 2004
| Cresceste tanto, filhota, que as roupas já não te servem. Cresceste desde ontem, quando saí de casa, e dormias profundamente, numa calma que só a ti reconheço. Cresceste desde que te afaguei os cabelos e te beijei a face, enquanto sorrias. Quando olho para ti, sei e tenho a certeza de que a felicidade existe. Porque desde que nasceste, que sou mais feliz. Não só porque vieste preencher um vazio deixado pela ausência do teu avô, talvez por teres cara de anjo, como ele. Sabes que são parecidos, filha? Tens o mesmo nariz pequeno, e arrebitado, fazes as mesmas expressões, e o queixo é inconfundível. Por isso tenho a certeza de que foi Deus que te trouxe, para nos compensar a todos, pela tristeza profunda que tínhamos atravessado.
Mas filhota, desde que te vi pela primeira vez, tive a certeza de que estávamos unidas para sempre. Apesar de te terem cortado o cordão ao fim de 36 semanas dentro de mim. Apesar de, algumas vezes, ter que te deixar, e não ficar ao pé de ti, como gostava e como merecias. Habituei-me á tua presença, ao teu cheiro. E a primeira coisa que faço quando te vejo, é cheirar-te. Para ter a certeza que estás ali, ao pé de mim, e que és a Helena. A minha Helena. Sabes que, apesar de nunca querer saber, sempre soube que eras tu? Sonhava contigo, com a tua presença, sentia o bater dos teus pezinhos. E quando te viram nascer, quando me disseram que eras uma menina, a minha menina, tive a certeza de que a natureza não se engana, e eu também não me tinha enganado. Querida, há dias dei por mim a recordar os ainda poucos momentos da tua vida. Porque tenho medo, ou receio, que as memórias se percam. Tenho medo de me esquecer de alguma das tuas fases. Lembro-me de te achar tão pequena, e ver-te tão linda, quando nasceste. Sei que te amamentei por pouco tempo, mas que te dei tudo de mim, nos teus primeiros meses, apesar de às vezes me sentir meio perdida. Lembro-me quando te levei para o Infantário, e o que me custou deixar-te ao fim de 7 meses de uma presença constante. Lembro-me das tuas primeiras palavras, ou dos dentes que teimavam em não nascer, e das vezes a fio que me chamaste papá, quando te ía buscar à escola. Sou a mamã, filha. A mamã que se aborrece contigo, quando fazes asneiras, e que te compensa quando és menina bonita. A mamã que se ri dos teus disparates, da altivez com que dizes o teu nome todo, e da segurança com que, do alto dos teus dois anos, contas os dedinhos, até dez, sem te enganares. Sou a mamã, que chora quando tem que ir trabalhar até tarde, quando tu lhe pedes para ficar, que se emociona com as tuas descobertas e vitórias do mundo, e sobretudo que faz questão, muita questão, de te ensinar a ser feliz. Mas tu, na tua pequenez, é que me tens ensinado quase tudo! |