
E, já agora, (sujas) recordações de Dezembro de 2002!
Ando a cultivar-te memórias... dos tempos agora distantes, dos dias mais antigos, das fotografias que vês e revês na esperança de encontrar algo ou alguma referência que te transporte para outra idade. Queres saber o porquê de já não seres mais um bebé, de seres uma menina grande, talvez com receio que o primo bebé que lá vem invada o teu tempo e o teu espaço. Mas dizes, orgulhosa, com voz altiva de menina mais velha, que o primo vai dormir no teu berço, e que vais ter uma cama "gandi, gandi, gandi" só para ti, igual à da avó. Dizes que vais ensiná-lo a andar e a falar e a pintar e a escrever, como se o fizesses já, na tua metódica perfeição... Mas o mais engraçado é que poucos milímetros de vida são já uma certeza na tua. Quando vês a "Tia Polha" saltas-lhe para o colo enquanto gritas alegremente. Queres dar-lhe um beijo na barriga. Ao contrário do que pensava, tens perfeitamente a noção de que ainda falta muito tempo para termos o bebé connosco, e demonstras uma calma para mim desconhecida. Lá andas tu outra vez a ensinar-me a viver, enquanto corres à volta da mesa, e dizes e repetes vezes sem parar, com os braços esticados para o ar, que a barriga da tia vai ficar "muito enorme"... |
A tua festa foi como imaginei, apesar deste ano não me sentir muito motivada para a fazer. Não sei se pela excitação das novidades do bebé primo, que lá vem, ou se por estar a trabalhar nesses dias, que me causou o dobro do cansaço. De qualquer forma, ao fim de analisar todos as hipóteses, concluí apenas que este aniversário não foi só mais um. São já três os anos de ti, em mim, ou em nós. Da tua vida, da tua alegria, da nossa felicidade. Três anos da maior aprendizagem que tive, de descoberta, da construção do amor mais eterno que conheço. O que tenho por ti.
Estavas radiante com a perspectiva de chegar Domingo. Como te prometi, quando acordasses, lá estaria uma prendinha encostada à janela, deixada por uma fada. A fada madrinha, na tua imaginação. A "fada mamã". Quando te telefonei, às 10h40, cantavas radiante as "musícas" do novo CD. E querias à força abrir uns presentes que a mamã tentara esconder de ti, debaixo da cama da Tia Tita. Chegar a casa foi uma alegria. Vestir-te uma roupa nova, e terminar à pressa os doces e salgados dos convidados. A madrugada anterior não foi suficiente para ultimar todos os pormenores. Depois sempre a mesma alegria. Os amigos e familiares a chegar. Montanhas de presentes para desembrulhar. Velas no bolo de aniversário. Desta vez três. Outro dos dias mais felizes da minha vida, por poder partilhá-lo contigo. O meu corpo a ressentir-se de horas sucessivas de stress, compras, culinária, arrumações e afins. Mas foi tão bom ver-te adormecer ao lado do Xico com um sorriso estampado na carinha pequena. Segunda-Feira querias fazer anos outra vez. Tiveste direito a bolo e surpresas na escolinha. Quando te fui buscar, à tarde, perguntaste-me se ías ter mais prendas e mais bolos e mais gente. Respondo-te que não. Só para o ano. "Como a avó, que também faz anos para o ano?" Perguntas. Sim. "Mamã, o que é um ano?". E eu, mais uma vez, sem te conseguir responder... |
Afinal às vezes temos medo, amor, por nada, ou por coisa nenhuma! Sei que ainda é cedo, demasiado cedo, mas o milagre da vida desenvolve-se na barriga da tia magriça! Se dúvidas havia, eis que a tecnologia nos vem provar que a tua sementinha - prima está lá, bem viva, e já com 3,8 mm. Quase 4 mm de gente, que vão crescendo inversamente proporcionais à nossa paciência. Mas da mesma maneira que a nossa curiosidade... É impressionante como uma imagem quase imperceptível muda as nossas vidas para sempre. E é por isso que a mamã acredita tanto numa Senhora, a quem pediu tanto que tudo corresse bem. Que assim continue! Mais do que alegria, felicidade. Mais do que tudo... P.S. - E a dra. ainda deixou no ar a possibilidade de em vez de uma, serem duas sementinhas...
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Estava aqui a pensar, pequenina, que na tua cabeça as coisas têm uma lógica estranha mas muito real. Porque, sinceramente, faz todo o sentido chamares "arrumário" a um móvel onde se arrumam coisas! Já acrescentei mais uma palavra ao lote das que tu inventas, e que são tão utéis, que às vezes dou por mim a dizê-las noutras situações, com outras pessoas, que provavelmente pensam coisas estranhas da mamã. Já pensei também nisso, e realmente todos os dias compreendo mais o que é ser mãe. Ou melhor, tua mãe! É vestir um pouco a tua pele, sentir como te sentes, viver o que vives. Para te compreender. Há dias em que não tenho paciência, outros em que pareço, como tu, uma menina. Como quando te levo ao Infantário e fazemos corridas para ver quem chega primeiro à campaínha, em grande algazarra. Não sei ser de outra maneira, ou educar-te de outra forma. Talvez por vezes seja demasiado permissiva. Certo é que sigo o meu instinto, e deixo-me levar. Porque das ideias pré-definidas que tinha, já me esqueci... P.S. - "Falei" agora com a sementinha, que até estava bem disposta! |
Não Aguento!!! Logo no dia em que a Beatriz resolveu nascer, eis que tenho uma notícia pela qual esperei tanto tempo. VOU SER TIA ! Pois é Princesa, vais ter o primo bebé que pediste, com meias, sapatinhos, e tudo o que tens direito…
Resta-me pedir a Deus que não confirmem as suspeitas, e que o meu bebé, agora apenas com 2 mm, cresça saudável e feliz na barriga magricela da mamã! Decididamente, é muita felicidade para um dia só! P.S. – Eu sei que, dadas as circunstâncias, ainda é segredo. Mas eu prometo que ninguém vai ler isto! |
És gulosa como ninguém, ou como a mamã. Aproveitas todas as oportunidades para pedir mais um rebuçado, ou um chocolate, ou um bolo. E dizes: "Só três", com os deditos levantados, como se três fosse pouco. Este ano, no dia de todos os Santos, lá foste tu recuperar uma memória que tenho de menina. Quando acordava cedinho, cedinho, por vezes ainda de noite, com uma ansiedade do tamanho do mundo. Quando tinha que esperar, por imposição do avô, que chegassem as dez horas, quando acabava a missa. Depois lá ía, de saca na mão, com outros meninos, de casa em casa, a pedir bolinho. Há alguns dias que te ensinamos como se pede, mas insistes em dizer "Dá bolinho, tia"! É tudo a mesma coisa. Mas este ano é especial. As primas "Biritiz" e "Matilde" também vão contigo, uma de cada lado, e saltas de alegria. Recuperaste aquele riso de bebé qua aprendeste a dobrar, e que nos faz rir a nós. E soltas gargalhadas infindáveis, debaixo de um sol quente, como a minha alma, que ter espreita. No final da volta, já estás cansada e com fome. Andámos tanto, que até a nós, adultos, nos faz alguma diferença. É bom viver nesta aldeia, onde todos te conhecem e te mimam. É bom ver nos rostos uma vontade feliz de te ver, de te falar. A vida passa tão depressa, os nossos dias são tão curtos, a nossa rotina é tão fugaz, que por vezes esquecemo-nos que estes momentos são tão bons... É bom ver-te adormecer, já cansada, num dia como o de hoje. Porque amanhã há uma caixa enorme de guloseimas para saborear...
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Às vezes, ou quase sempre, fico espantada com o teu crescimento, e da maneira fácil em que se transforma em desenvolvimento repentino. Sempre achei que és estimulada como poucas crianças são, porque afinal nem todos têm o privilégio de ter uma educadora privada, a quem tens também a alegria de chamar avó. Por isso os teus dias em casa nunca são monótonos. Ao ponto de pesares em pratos de balança se te apetece ou não, todos os dias, ir ao Infantário. À escola apelativa, pintada de cores, onde se multiplicam os jogos, as canções, e sobretudo os meninos, de quem tanto gostas. Onde fazes desenhos sem fim, dos quais te perguntei uma vez, romanticamente, qual seria a sua representação. Encolheste os ombros, como que a substimar a minha inteligência, e disseste simplesmente: "ó mamã... são riscos". E eu que julgava que, para ti, os riscos eram carrosséis, bombons, casinhas e brincadeiras. Ontem cheguei a casa, farta do trabalho e de tudo. Qual soldadinho de chumbo, a avó exibe orgulhosa mais uma obra prima. Pede-te: "Helena, vai buscar a letra do nome da mamã". Trazes o V, que exibes aos saltinhos. Escolheste-o no meio de um puzzle colorido de todas as letras do alfabeto, com alguns números à mistura. "A da tia Patrícia e do Tio Pedro, e do Papá". Trazes um P com convicção. Segue-se o nome da Tia Rita. E depois: "Vai buscar a letra do nome da Helena!". E lá vais tu a correr, aos gritinhos. E eu, enternecida, deitada, extenuada e surpreendida. Trazes-me um M e um H. De Maria Helena. Achei depois que te conseguia confundir, princesa, trocando a ordem das peças e das letras. Mas quem se enganou fui eu... |
A Ziggy tinha um dói-dói muito grande, e morreu e foi para o céu. Ficas indignada, a olhar para a gaiola, onde falta a coelha a quem todos dias de manhã fazias questão de dizer "Bom dia!". Queres saber onde ela está, e porquê, onde é o ceú, e porquê, onde era o dói-dói, e porquê, o que é que ela tinha papado, que lhe tinha feito mal, e porquê. E mais... porque é que ela era preta, porque é que escapava sempre que tinha oportunidade, porque é que fugia quando lhe querias fazer festinhas no pêlo fofinho, porque é que já não podes por-lhe comida na tacinha, que ela devorava, porque é que já não te morde os dedinhos,... porque tudo! A tua curiosidade pelo mundo e pelas coisas que te rodeiam é tal, que muitas vezes fico sem palavras, sem saber o que te dizer ou que te explicar. Certo é que decidi ver-te crescer sem esconderijos, sem tabus ou falsas verdades. Tarefa complicada para a mamã, que tantas vezes tem que inventar mil e uma histórias e personagens, para que a vida não seja para ti incompreensivelmente estranha.
Engraçado é ver, no fim dos relatos, a versão que utilizas, para contar a toda a gente. Na tua inocência não existem segredos. A não ser aqueles que contas baixinho, ao ouvido, a toda a gente numa sala. A toda a gente! No outro dia houve uma reportagem na televisão lá perto da casa da avó, lembras-te? Quiseste saber o que é que os senhores lá estavam a fazer, o que é que ía aparecer na televisão, e porquê. Hoje contas alegremente que os senhores queriam cortar a estrada, mas o Manel não deixou, nem os outros senhores que vieram. E agora não se pode fazer uma ponte maior. Contas também que na escola, quando estás a papar a chicha a Carolina, que é feia, puxa o "gómito", e não papa a sopa toda, e fica de castigo, porque faz xixi nas cuecas e não come os bombons e as bolachas. Contaste no outro dia que a avó Lurdes e a Velha tinha ído ao "méquido", para papar comprimidos, daqueles que são bolinhas pequenas de cores, que tu ao longe invejas. Contas a quem te quer ouvir que o avô Emídio morreu e foi para o céu, porque, como a Ziggy, tinha um dói-dói muito grande. Perguntas-me, quando tenho uma dor de cabeça já habitual, se também vou para lá. Sossego-te e digo que não. A mamã está aqui e fica contigo até tu quereres e Deus permitir. E fica a olhar para ti, e a ouvir-te crescer, baixinho. Como já te prometeu... |